
A existência, conceituada pelo existencialismo, seria exclusividade do ser pensante e consequência do sentimento de existir, logo, exclusivamente típica do homem. Sob esse raciocínio, as coisas e animais não dotados de racionalidade não seriam mais que essências imutáveis, enquanto o homem teria o poder de automoldar-se. Há de convir-se, portanto, que a vida de um inseto, por exemplo, não lhe seria penosa, uma vez que não corresponderia a nada mais que uma forma pura, incapaz de encerrar qualquer noção de tempo, mutação ou consciência do absurdo de sua existência. A existência, precessora, e formadora da essência, só seria aplicada aos seres capazes de avaliá-la, cônscios ou não dela. No trecho seguinte, retirado do livro "A Náusea", há a evocação da máxima "Penso, logo existo", de Descartes, moldada à luz do Existencialismo, sitetizando a idéia exposta acima:
"Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância a existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência."
"Sou, existo, penso, logo sou: sou porque penso, por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu... porque...bah!"
Então, é possível constatar uma aparente incoerência no episódio ocorrido em um dos encontros do Autodidata com Roquentin, narrado no livro "A Náusea":
"Há um círculo de sol sobre a toalha de papel. No círculo uma mosca se arrasta entorpecida, se aquece e esfrega uma na outra as patas dianteiras. VOU LHE FAZER O FAVOR DE ESMAGÁ-LA. Ela não vê surgir o indicador gigante, cujos pêlos dourados brilham ao sol.
-Não a mate, senhor! - exclama o Autodidata.
A mosca rebenta, as tripinhas brancas emergem de seu ventre; LIBERTEI-A DA EXISTÊNCIA. Digo secamente ao Autodidata:
-ERA UM FAVOR A PRESTAR A ELA."
A libertação do inseto de sua existência, nesse caso, poderia parecer absurda, pois a penosidade de existir não se estabelece em seres não pensantes. Há, ainda, o fato de que a existência ocorre exclusivamente a estes, logo, a mosca nem mesmo seria portadora de uma existência. Entretanto, a existência, nesse caso, é apenas um sinônimo de vida, uma referência ao ato de existir, não estando imbuída do conceito existencialista atribuído ao nome. O protagonista, portanto, é quem avalia e condena a essência do inseto como uma prisão e julga-se apto, ou ainda, portador do direito de retirar-lhe a aparência, a essência. Logo, subentende-se que ao HOMEM a quem é revelada a gratuidade e absurdo da existência, é legítimo o direito de INTERFERÊNCIA em outras existências ou essências. Dentre essas interferências constaria, inclusive, o poder de extinguir vidas, libertando-as do estado nauseante a que estão presas.
“Eles não estão errados em sentir medo: sei bem que seria capaz de qualquer ato. Por exemplo: enfiar essa faca de queijo no olho do Autodidata. Depois disso todas essas pessoas me pisoteariam, quebrariam meus dentes com pontapés. Mas não é isso que me detém: não faz diferença um gosto de sangue na boca em lugar desse gosto de queijo. SÓ QUE SERIA NECESSÁRIO FAZER UM GESTO, DAR ORIGEM A UM ACONTECIMENTO SUPÉRFLUO: SERIA INDESEJÁVEL O GRITO QUE SOLTARIA O AUTODIDATA - E O SANGUE QUE ESCORRERIA EM SEU ROSTO E O SOBRESSALTO DE TODAS ESSAS PESSOAS. Já há coisas suficientes sem isso.”
Nesta passagem fica claro que o que impede Roquentin de cometer uma grande violência contra outro indivíduo não é a consciência moral, legal ou de qualquer espécie, mas puramente a impropriedade, ou até mesmo incômodo de ter que promover um acontecimento que, sobretudo, é considerado SUPÉRFLUO. O homem é o centro de todas as coisas, possuindo o poder de alterá-las segundo o que melhor lhe convir.
Essa plenitude de poder de decisão conferida ao homem remete o existencialismo ao antropocentrismo e, consequentemente ao Humanismo. Em primeiro momento salta uma antagonia entre as duas correntes: enquanto o Humanismo representa uma concepção do mundo centrada na crença no homem, o Existencialismo traz uma visão niilista, pessimista e misantrópica do indivíduo e a incongruência nauseante de sua existência. Em vários aspectos esses pensamentos realmente se contrapõem, entretanto, são concernentes no aspecto fundamental: a centralidade do homem e seu poder decisivo e moldador do universo.
No livro “A Náusea”, essa relatividade entre as duas correntes filosóficas é representada pela amizade entre o Autodidata, personificação do Humanismo, e Roquentin, representante da visão Existencialista.
Roquentin:
"-é porque estou pensando - digo rindo - que aqui estamos, todos nós, comendo e bebendo, para conservar nossa preciosa existência, e que não há nada, nada, nenhuma razão para existir."
Autodidata:
"-Há uma finalidade, senhor, há uma finalidade... há os homens."
Conciliação de ideologias:
"O misantropo é o homem: portanto, em certa medida é preciso que o humanista seja misantropo Mas é um misantropo científico, que soube dosar seu ódio, que só começa por odiar os homens para amá-los melhor depois.

3 comentários:
"penso que eu... porque...bah!"
Duvido que descartes escreveu "bah!".
=)
"A libertação do inseto de sua existência, nesse caso, poderia parecer absurda, pois a penosidade de existir não se estabelece em seres não pensantes."
Se a "penosidade" de existir, não se estabelece em seres "não-pensantes", por que os mesmos refutam a possibilidade da própia extinção?
Posso pensar e existir, mas quão REAL existo?
Já leu neuromancer?
De que formas e onde os seres não pensantes refutam a possibilidade da própria extinção NO EXISTENCIALISMO? Porque é preciso perceber que está sendo feito um paralelo entre existência e essência, analisado do ponto de vista dessa corrente de pensamento.
E quem escreveu "bah", foi Sartre. Basta ler o livro "A Náusea" pra conferir.
=)
A realidade da existência seria medida, exatamente pela consciência de si mesma.
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