sexta-feira, 2 de outubro de 2009

J. P. Sartre



Primeiro romance de Sartre, A Náusea (cujo título inicial era Melancolia) foi escrito em 1931 e publicao em 1938. A sugestão veio de um quadro de Albrecht Dürer, pintado em 1514. A temática da obra consiste, fundamentalmente, no existencialismo representando pela visão niilista, pessimista e misantrópica de Antoine Roquentin, um historiador de 35 anos que se refugia na província de Bouville para escrever a biografia do marquês de Rollebon.


Melancolia - Albrecht Dürer

O protagonista, que desenvolve a narrativa por meio de um diário, dedica-se à observação das várias existências que o circundam, convencendo-se cada vez mais da idéia de que a existência é gratuita, absurda por sua falta de fundamentação; o que o leva a ser acometido por uma estranha sensação de aversão ao ser humano e sua condição existencial - a "náusea".
Outro aspecto fundamental na obra é o caráter intencional da consciência. A visão de que qualquer modo de consciência é representativo ou revelador de algo fora dela mesma, daí dizer-se que a consciência é intencional. Nesse sentido, os indivíduos observados por Roquentin são sempre apontados como portadores de uma inconsciência de sua existência, o que ocorre por meio da metáfora do sonambulismo – por várias vezes os indivíduos observados são descritos como imersos em uma espécie de sono.

Sobre um grupo de burgueses:
“Em alguns rostos, mais expressivos, tive a impressão de ler um pouco de tristeza: mas não, aquelas pessoas não estavam nem tristes nem alegres: repousavam. (...) apenas sua respiração regular e profunda como a de quem dorme, confirmava que estavam vivos.”

Sobre o Sr. Fasquelle, gerente do café Mably:
“Sorrio ao vê-lo tão vivaz: nas horas em que seu estabelecimento se esvazia, também sua cabeça se esvazia. De duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos, como que idiotizando, os garçons apagam as luzes e ele mergulha na inconsciência: quando fica sozinho, esse homem dorme.”

Consideração do protagonista:
"Gostaria tanto de me abandonar de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca (...)"

Segundo Francis Jeanson, o romance apresenta a concepção de absurdo e contingência de Sartre. A confrontação do protagonista com o vazio existencial de todas as coisas e a conclusão de que a existência precede a essência (um dos princípios fundamentais do existencialismo sintetizada na notável definição de Sartre “A existência precede e governa a essência”), tornam o absoluto em absurdo, uma vez que toda a realidade é incerta ou contingente.

“Mas no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem , deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzí-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte e gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio.”

Nenhum comentário: