terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Insustentável Leveza do Ser



"Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora."

"Tereza nasceu, portanto, de uma situação que revela brutalmente a irreconciliável dualidade do corpo e da alma, essa experiência humana fundamental.
Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo. Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida. O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo e pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo era a alma. (...)" P.46



"Aquele que deseja continuamente "elevar-se" deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por qu~e sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda da qual logo nos defendemos aterrorizados." P. 65

segunda-feira, 29 de março de 2010

TABACARIA

FERNANDO PESSOA - Poesias de Álvaro de Campos

Porque Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos é, para mim, incomparavelmente mais interessante. :)

TABACARIA

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos, 15-1-1928

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Doutor Jivago - Boris Pasternak


Essa foto não foi tirada por mim. Roubei de alguém aí da internet. Isto porque o livro que está comigo é daqueles reencapados com uma cobertura marrom bem sem graça; o que é muito chato pra mim, que reparo muito nas capas.
Nem sei porque estou aqui escrevendo quando tenho prova de cálculo luminotécnico amanhã de manhã, e ainda nem cheguei na metade do livro, que tem 560 páginas, mas...
Estava lendo quando, de repente, me dei com algo bem parecido com o que Nietzsche chama de "Eterno Retorno":

"Mas uma vida sempre idêntica e infinita é o que enche o universo e se renova, de hora em hora, em inúmeras combinações e metamorfoses. Tu, por exemplo, indagas com inquietação se vais ressucitar; no entanto, já ressucitaste quando naceste, sem mesmo o teres percebido."

Depois continuo.
=*

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón



Eu não sou muito de Best-Sellers, mas foi difícil passar indiferentemente pela prateleira dos mesmos quando, de relace, vi essa capa e título: "A Sombra do Vento". Esses oximoros sempre me prendem a atenção. Li a primeira página, e as próximas 200, de uma vez. Só parei porque tenho que terminar um projeto para quinta, que é depois de amanhã. A narrativa prende o leitor por veriados fatores, como: a ironia de que está impregnada, a linguagem, que consegue ser extremamente elaborada e poética, sem ser chata e a variedade de estilos literários que reune coerentemente.

Alguns trechos interessantes (desconexos - cada um pertence a um momento da narrativa):

"Este mundo não vai acabar por causa da bomba atômica, como dizem os jornais, vai acabar, sim, por tanta risada, de tanta banalidade, por essa mania de se fazer piada com tudo, e além do mais, piadas ruins."


Eu tive a nítida sensação de estar lendo "Os Miseráveis", de Victor Hugo, em trechos como esse:
"A praça de San Filipe Neri é apenas uma trégua no labirinto de ruas que se intercalam no bairro gótico, escondida atrpas das velhas muralhas romanas. os buracos das balas de metralhadora dos dias de guerra salpicam as paredes das igrejas. Naquela manhã, um grupo de crianças brincava de soldadinho, indiferente à memória das pedras."


"- Não se ofenda, mas às vezes a gente se sente mais livre para falar com um estranho do que com as pessoas que conhecemos. Por quê será?
Dei de ombros.
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, não como deseja achar que somos."


"-Alguém disse um vez que na hora em que se pára para pensar se gosta de alguém, já deixou de gostar da pessoa para sempre."


"Um bom pai?
-Sim. Como o seu. um homem com cabeça, coração e alma. Um homem que seja capaz de escutar, guiar e respeitar uma criatura, e não de afogar nela os próprios defeitos. Aguém de quem um filho não goste apenas por ser seu pai, mas que o admire pela pessoa que é. Alguém com quem queira se parecer."

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recordações da Casa dos Mortos



O que faltava desses 6.
(depois escrevo sobre)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Existencialismo é um Humanismo


A existência, conceituada pelo existencialismo, seria exclusividade do ser pensante e consequência do sentimento de existir, logo, exclusivamente típica do homem. Sob esse raciocínio, as coisas e animais não dotados de racionalidade não seriam mais que essências imutáveis, enquanto o homem teria o poder de automoldar-se. Há de convir-se, portanto, que a vida de um inseto, por exemplo, não lhe seria penosa, uma vez que não corresponderia a nada mais que uma forma pura, incapaz de encerrar qualquer noção de tempo, mutação ou consciência do absurdo de sua existência. A existência, precessora, e formadora da essência, só seria aplicada aos seres capazes de avaliá-la, cônscios ou não dela. No trecho seguinte, retirado do livro "A Náusea", há a evocação da máxima "Penso, logo existo", de Descartes, moldada à luz do Existencialismo, sitetizando a idéia exposta acima:

"Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância a existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência."

"Sou, existo, penso, logo sou: sou porque penso, por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu... porque...bah!"

Então, é possível constatar uma aparente incoerência no episódio ocorrido em um dos encontros do Autodidata com Roquentin, narrado no livro "A Náusea":

"Há um círculo de sol sobre a toalha de papel. No círculo uma mosca se arrasta entorpecida, se aquece e esfrega uma na outra as patas dianteiras. VOU LHE FAZER O FAVOR DE ESMAGÁ-LA. Ela não vê surgir o indicador gigante, cujos pêlos dourados brilham ao sol.
-Não a mate, senhor! - exclama o Autodidata.
A mosca rebenta, as tripinhas brancas emergem de seu ventre; LIBERTEI-A DA EXISTÊNCIA. Digo secamente ao Autodidata:
-ERA UM FAVOR A PRESTAR A ELA."

A libertação do inseto de sua existência, nesse caso, poderia parecer absurda, pois a penosidade de existir não se estabelece em seres não pensantes. Há, ainda, o fato de que a existência ocorre exclusivamente a estes, logo, a mosca nem mesmo seria portadora de uma existência. Entretanto, a existência, nesse caso, é apenas um sinônimo de vida, uma referência ao ato de existir, não estando imbuída do conceito existencialista atribuído ao nome. O protagonista, portanto, é quem avalia e condena a essência do inseto como uma prisão e julga-se apto, ou ainda, portador do direito de retirar-lhe a aparência, a essência. Logo, subentende-se que ao HOMEM a quem é revelada a gratuidade e absurdo da existência, é legítimo o direito de INTERFERÊNCIA em outras existências ou essências. Dentre essas interferências constaria, inclusive, o poder de extinguir vidas, libertando-as do estado nauseante a que estão presas.

“Eles não estão errados em sentir medo: sei bem que seria capaz de qualquer ato. Por exemplo: enfiar essa faca de queijo no olho do Autodidata. Depois disso todas essas pessoas me pisoteariam, quebrariam meus dentes com pontapés. Mas não é isso que me detém: não faz diferença um gosto de sangue na boca em lugar desse gosto de queijo. SÓ QUE SERIA NECESSÁRIO FAZER UM GESTO, DAR ORIGEM A UM ACONTECIMENTO SUPÉRFLUO: SERIA INDESEJÁVEL O GRITO QUE SOLTARIA O AUTODIDATA - E O SANGUE QUE ESCORRERIA EM SEU ROSTO E O SOBRESSALTO DE TODAS ESSAS PESSOAS. Já há coisas suficientes sem isso.”

Nesta passagem fica claro que o que impede Roquentin de cometer uma grande violência contra outro indivíduo não é a consciência moral, legal ou de qualquer espécie, mas puramente a impropriedade, ou até mesmo incômodo de ter que promover um acontecimento que, sobretudo, é considerado SUPÉRFLUO. O homem é o centro de todas as coisas, possuindo o poder de alterá-las segundo o que melhor lhe convir.

Essa plenitude de poder de decisão conferida ao homem remete o existencialismo ao antropocentrismo e, consequentemente ao Humanismo. Em primeiro momento salta uma antagonia entre as duas correntes: enquanto o Humanismo representa uma concepção do mundo centrada na crença no homem, o Existencialismo traz uma visão niilista, pessimista e misantrópica do indivíduo e a incongruência nauseante de sua existência. Em vários aspectos esses pensamentos realmente se contrapõem, entretanto, são concernentes no aspecto fundamental: a centralidade do homem e seu poder decisivo e moldador do universo.

No livro “A Náusea”, essa relatividade entre as duas correntes filosóficas é representada pela amizade entre o Autodidata, personificação do Humanismo, e Roquentin, representante da visão Existencialista.

Roquentin:
"-é porque estou pensando - digo rindo - que aqui estamos, todos nós, comendo e bebendo, para conservar nossa preciosa existência, e que não há nada, nada, nenhuma razão para existir."

Autodidata:
"-Há uma finalidade, senhor, há uma finalidade... há os homens."

Conciliação de ideologias:
"O misantropo é o homem: portanto, em certa medida é preciso que o humanista seja misantropo Mas é um misantropo científico, que soube dosar seu ódio, que só começa por odiar os homens para amá-los melhor depois.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

J. P. Sartre



Primeiro romance de Sartre, A Náusea (cujo título inicial era Melancolia) foi escrito em 1931 e publicao em 1938. A sugestão veio de um quadro de Albrecht Dürer, pintado em 1514. A temática da obra consiste, fundamentalmente, no existencialismo representando pela visão niilista, pessimista e misantrópica de Antoine Roquentin, um historiador de 35 anos que se refugia na província de Bouville para escrever a biografia do marquês de Rollebon.


Melancolia - Albrecht Dürer

O protagonista, que desenvolve a narrativa por meio de um diário, dedica-se à observação das várias existências que o circundam, convencendo-se cada vez mais da idéia de que a existência é gratuita, absurda por sua falta de fundamentação; o que o leva a ser acometido por uma estranha sensação de aversão ao ser humano e sua condição existencial - a "náusea".
Outro aspecto fundamental na obra é o caráter intencional da consciência. A visão de que qualquer modo de consciência é representativo ou revelador de algo fora dela mesma, daí dizer-se que a consciência é intencional. Nesse sentido, os indivíduos observados por Roquentin são sempre apontados como portadores de uma inconsciência de sua existência, o que ocorre por meio da metáfora do sonambulismo – por várias vezes os indivíduos observados são descritos como imersos em uma espécie de sono.

Sobre um grupo de burgueses:
“Em alguns rostos, mais expressivos, tive a impressão de ler um pouco de tristeza: mas não, aquelas pessoas não estavam nem tristes nem alegres: repousavam. (...) apenas sua respiração regular e profunda como a de quem dorme, confirmava que estavam vivos.”

Sobre o Sr. Fasquelle, gerente do café Mably:
“Sorrio ao vê-lo tão vivaz: nas horas em que seu estabelecimento se esvazia, também sua cabeça se esvazia. De duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos, como que idiotizando, os garçons apagam as luzes e ele mergulha na inconsciência: quando fica sozinho, esse homem dorme.”

Consideração do protagonista:
"Gostaria tanto de me abandonar de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca (...)"

Segundo Francis Jeanson, o romance apresenta a concepção de absurdo e contingência de Sartre. A confrontação do protagonista com o vazio existencial de todas as coisas e a conclusão de que a existência precede a essência (um dos princípios fundamentais do existencialismo sintetizada na notável definição de Sartre “A existência precede e governa a essência”), tornam o absoluto em absurdo, uma vez que toda a realidade é incerta ou contingente.

“Mas no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem , deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzí-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte e gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio.”