sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recordações da Casa dos Mortos



O que faltava desses 6.
(depois escrevo sobre)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Existencialismo é um Humanismo


A existência, conceituada pelo existencialismo, seria exclusividade do ser pensante e consequência do sentimento de existir, logo, exclusivamente típica do homem. Sob esse raciocínio, as coisas e animais não dotados de racionalidade não seriam mais que essências imutáveis, enquanto o homem teria o poder de automoldar-se. Há de convir-se, portanto, que a vida de um inseto, por exemplo, não lhe seria penosa, uma vez que não corresponderia a nada mais que uma forma pura, incapaz de encerrar qualquer noção de tempo, mutação ou consciência do absurdo de sua existência. A existência, precessora, e formadora da essência, só seria aplicada aos seres capazes de avaliá-la, cônscios ou não dela. No trecho seguinte, retirado do livro "A Náusea", há a evocação da máxima "Penso, logo existo", de Descartes, moldada à luz do Existencialismo, sitetizando a idéia exposta acima:

"Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância a existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência."

"Sou, existo, penso, logo sou: sou porque penso, por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu... porque...bah!"

Então, é possível constatar uma aparente incoerência no episódio ocorrido em um dos encontros do Autodidata com Roquentin, narrado no livro "A Náusea":

"Há um círculo de sol sobre a toalha de papel. No círculo uma mosca se arrasta entorpecida, se aquece e esfrega uma na outra as patas dianteiras. VOU LHE FAZER O FAVOR DE ESMAGÁ-LA. Ela não vê surgir o indicador gigante, cujos pêlos dourados brilham ao sol.
-Não a mate, senhor! - exclama o Autodidata.
A mosca rebenta, as tripinhas brancas emergem de seu ventre; LIBERTEI-A DA EXISTÊNCIA. Digo secamente ao Autodidata:
-ERA UM FAVOR A PRESTAR A ELA."

A libertação do inseto de sua existência, nesse caso, poderia parecer absurda, pois a penosidade de existir não se estabelece em seres não pensantes. Há, ainda, o fato de que a existência ocorre exclusivamente a estes, logo, a mosca nem mesmo seria portadora de uma existência. Entretanto, a existência, nesse caso, é apenas um sinônimo de vida, uma referência ao ato de existir, não estando imbuída do conceito existencialista atribuído ao nome. O protagonista, portanto, é quem avalia e condena a essência do inseto como uma prisão e julga-se apto, ou ainda, portador do direito de retirar-lhe a aparência, a essência. Logo, subentende-se que ao HOMEM a quem é revelada a gratuidade e absurdo da existência, é legítimo o direito de INTERFERÊNCIA em outras existências ou essências. Dentre essas interferências constaria, inclusive, o poder de extinguir vidas, libertando-as do estado nauseante a que estão presas.

“Eles não estão errados em sentir medo: sei bem que seria capaz de qualquer ato. Por exemplo: enfiar essa faca de queijo no olho do Autodidata. Depois disso todas essas pessoas me pisoteariam, quebrariam meus dentes com pontapés. Mas não é isso que me detém: não faz diferença um gosto de sangue na boca em lugar desse gosto de queijo. SÓ QUE SERIA NECESSÁRIO FAZER UM GESTO, DAR ORIGEM A UM ACONTECIMENTO SUPÉRFLUO: SERIA INDESEJÁVEL O GRITO QUE SOLTARIA O AUTODIDATA - E O SANGUE QUE ESCORRERIA EM SEU ROSTO E O SOBRESSALTO DE TODAS ESSAS PESSOAS. Já há coisas suficientes sem isso.”

Nesta passagem fica claro que o que impede Roquentin de cometer uma grande violência contra outro indivíduo não é a consciência moral, legal ou de qualquer espécie, mas puramente a impropriedade, ou até mesmo incômodo de ter que promover um acontecimento que, sobretudo, é considerado SUPÉRFLUO. O homem é o centro de todas as coisas, possuindo o poder de alterá-las segundo o que melhor lhe convir.

Essa plenitude de poder de decisão conferida ao homem remete o existencialismo ao antropocentrismo e, consequentemente ao Humanismo. Em primeiro momento salta uma antagonia entre as duas correntes: enquanto o Humanismo representa uma concepção do mundo centrada na crença no homem, o Existencialismo traz uma visão niilista, pessimista e misantrópica do indivíduo e a incongruência nauseante de sua existência. Em vários aspectos esses pensamentos realmente se contrapõem, entretanto, são concernentes no aspecto fundamental: a centralidade do homem e seu poder decisivo e moldador do universo.

No livro “A Náusea”, essa relatividade entre as duas correntes filosóficas é representada pela amizade entre o Autodidata, personificação do Humanismo, e Roquentin, representante da visão Existencialista.

Roquentin:
"-é porque estou pensando - digo rindo - que aqui estamos, todos nós, comendo e bebendo, para conservar nossa preciosa existência, e que não há nada, nada, nenhuma razão para existir."

Autodidata:
"-Há uma finalidade, senhor, há uma finalidade... há os homens."

Conciliação de ideologias:
"O misantropo é o homem: portanto, em certa medida é preciso que o humanista seja misantropo Mas é um misantropo científico, que soube dosar seu ódio, que só começa por odiar os homens para amá-los melhor depois.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

J. P. Sartre



Primeiro romance de Sartre, A Náusea (cujo título inicial era Melancolia) foi escrito em 1931 e publicao em 1938. A sugestão veio de um quadro de Albrecht Dürer, pintado em 1514. A temática da obra consiste, fundamentalmente, no existencialismo representando pela visão niilista, pessimista e misantrópica de Antoine Roquentin, um historiador de 35 anos que se refugia na província de Bouville para escrever a biografia do marquês de Rollebon.


Melancolia - Albrecht Dürer

O protagonista, que desenvolve a narrativa por meio de um diário, dedica-se à observação das várias existências que o circundam, convencendo-se cada vez mais da idéia de que a existência é gratuita, absurda por sua falta de fundamentação; o que o leva a ser acometido por uma estranha sensação de aversão ao ser humano e sua condição existencial - a "náusea".
Outro aspecto fundamental na obra é o caráter intencional da consciência. A visão de que qualquer modo de consciência é representativo ou revelador de algo fora dela mesma, daí dizer-se que a consciência é intencional. Nesse sentido, os indivíduos observados por Roquentin são sempre apontados como portadores de uma inconsciência de sua existência, o que ocorre por meio da metáfora do sonambulismo – por várias vezes os indivíduos observados são descritos como imersos em uma espécie de sono.

Sobre um grupo de burgueses:
“Em alguns rostos, mais expressivos, tive a impressão de ler um pouco de tristeza: mas não, aquelas pessoas não estavam nem tristes nem alegres: repousavam. (...) apenas sua respiração regular e profunda como a de quem dorme, confirmava que estavam vivos.”

Sobre o Sr. Fasquelle, gerente do café Mably:
“Sorrio ao vê-lo tão vivaz: nas horas em que seu estabelecimento se esvazia, também sua cabeça se esvazia. De duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos, como que idiotizando, os garçons apagam as luzes e ele mergulha na inconsciência: quando fica sozinho, esse homem dorme.”

Consideração do protagonista:
"Gostaria tanto de me abandonar de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca (...)"

Segundo Francis Jeanson, o romance apresenta a concepção de absurdo e contingência de Sartre. A confrontação do protagonista com o vazio existencial de todas as coisas e a conclusão de que a existência precede a essência (um dos princípios fundamentais do existencialismo sintetizada na notável definição de Sartre “A existência precede e governa a essência”), tornam o absoluto em absurdo, uma vez que toda a realidade é incerta ou contingente.

“Mas no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem , deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzí-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte e gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio.”